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sábado, 11 de abril de 2015

Contribuições para uma história da mídia corporativa



Vozes Silenciadas – mídia e protestos: as manifestações de junho de 2013 nos jornais O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo



vozes silenciadas - capa final
Em junho de 2013, o país foi surpreendido por uma série de protestos replicados em diversas cidades, reunindo multidões e causando a paralisação de grandes centros urbanos. Foram as maiores manifestações desde as “Diretas Já” na década de 1980 e do “Fora Collor” na década de 1990. Os protestos das “Jornadas de Junho”, ou simplesmente as “Manifestações de Junho” nasceram da reivindicação contra o aumento da tarifa do transporte público e se expandiram, na sua fase final, para bandeiras e mais difusas e menos pontuais. 



Para o Coletivo Intervozes, os protestos de junho refletem um momento significativo de mobilização social que deve ser comemorado e também melhor compreendido. Um dos elementos importantes neste processo é a comunicação social. Tanto as os novos meios (mídias sociais, comunicação móvel) quanto os meios tradicionais (mass media, jornalismo formal) desempenharam papeis importantes. Serviram como caixas de ressonância para as vozes dos diversos atores que compuseram este enredo. Porém, se as mídias digitais serviram como ferramenta de mobilização e ampliação dos protestos, de que forma ocorreu a cobertura do mass media? Como os principais jornais brasileiros trataram o tema e seus atores? 

Para responder a estas questões ou pelo menos tentar esclarecê-las surgiu assim esta pesquisa ainda em 2013. Optou-se pela escolha de 3 importantes veículos de jornalismo online como objetos de estudo: Estadão, Folha de S. Paulo e O Globo e considerou-se que este seria um extrato representativo da mídia brasileira, até porque constituem jornais de grandes conglomerados de mídia atuantes no país. Quanto ao recorte temporal, optou-se pela análise dos 19 primeiros dias de junho por abarcar os momentos principais dos protestos e comportar uma quantidade significativa de matérias. Após a extensa coleta de dados e triagens de informação a análise foi realizada em um conjunto final de 964 matérias analisadas, somando os três veículos.

O estudo foi coordenado e executado pelo professor Sivaldo Pereira da Silva, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e Universidade de Brasília (UnB). Envolveu uma equipe de pesquisadores do Centro de Formação e Extensão em Comunicação, Democracia e Direitos Humanos (Coscentro) da Ufal no processo de coleta de dados e dupla checagem de informações.

Esperamos que a pesquisa possa contribuir para o entendimento histórico do que significaram as Manifestações de Junho e também sirva como registro da ação mediadora dos meios de comunicação neste processo. Uma mediação nem sempre pacífica e, como demonstram os dados, nem sempre adequada aos princípios normativos que regem a boa prática jornalística. 



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domingo, 5 de abril de 2015

Uma notícia estrondosa que não faz barulho na mídia corporativa

A mídia e a greve mundial no McDonald's


Altamiro Borges  sábado, 4 de abril de 2015
Está agendada para 15 de abril uma “greve mundial” contra a rede estadunidense de fast-food McDonald’s. A previsão é de que o movimento tenha a adesão de 200 cidades de 35 países. O motivo é a brutal exploração exercida pela multinacional, que paga míseros salários e adota inúmeras práticas lesivas aos direitos trabalhistas. Os trabalhadores brasileiros participarão da jornada. 

Em meados de março, o sindicato da categoria (Sinthoresp) protocolou uma ação no Tribunal de Justiça do Trabalho de São Paulo exigindo o fim do acúmulo de funções e o pagamento do adicional por insalubridade. Houve protesto dos funcionários na Avenida Paulista e a população foi informada sobre a adesão à “greve mundial”. A mídia privada, porém, não deu maior destaque ao movimento. A multinacional é uma das maiores anunciantes do país, o que explica a cumplicidade da imprensa privada e venal!

A mobilização contra os abusos do McDonald’s tem crescido no mundo inteiro. Ela teve início nos EUA em 2012, quando os funcionários desta e de outras redes de fast-food se reuniram em Nova York para exigir aumento salarial e melhores condições de trabalho. Desde então, outras cidades de várias partes do mundo aderiram aos protestos. O movimento conquistou o apoio de vários sindicatos, de estudantes e até de pastores de igrejas de Nova York, Chicago e Detroit.

Arrogante e truculenta, a direção da multinacional tenta minimizar o impacto das mobilizações. “Esses eventos não são 'greves', mas manifestações organizadas para atrair a atenção da mídia”, afirma Heidi Barker, porta-voz do McDonald's nos EUA. A realidade, porém, é bem diferente, conforme aponta Kwanza Brooks, funcionária da empresa na Carolina do Norte. “Quando nós começamos, poucas pessoas queriam participar. Elas estavam assustadas, com medo de perder o emprego. Mas o movimento está realmente crescendo, e pessoas que não sabiam que nós existíamos, agora sabem”.

Os efeitos da mobilização já se fazem sentir em vários terrenos. Em fevereiro, a multinacional confessou uma queda de 4% nas vendas em suas lojas nos EUA e de 1,7% em sua operação global, segundo reportagem do jornal “The New York Times”. Nas últimas semanas, o comando da “campanha global pelos direitos dos funcionários do McDonald’s” também comemorou outras vitórias parciais. Pela primeira vez na história ocorreu uma audiência do Comitê Nacional de Relações de Trabalho dos EUA em que a empresa foi acusada formalmente por práticas lesivas aos direitos dos trabalhadores e pela repressão à ação sindical. Antes, o órgão responsabiliza apenas os franqueadores da rede.

Já na terça-feira (31), a Comissão Europeia Antitruste solicitou, em Luxemburgo, informações sobre o acordo fiscal feito com o McDonald's em decorrência das denúncias de sindicatos de trabalhadores de evasão da ordem de 1 bilhão de euros entre 2009 e 2013. E no Japão, os investidores de fundos de pensão detentores de ações do McDonald's pediram a troca dos integrantes do conselho da empresa motivados pelas quedas nos resultados da companhia desde uma crise envolvendo o uso de matéria-prima estragada. Todos estes fatos, porém, não geram reportagens e denúncias na mídia “imparcial”. A grana da publicidade justifica a postura mafiosa!

quinta-feira, 5 de março de 2015

Os signos e a verdade simulada

O fim da cultura

Escrito por: Luciano Martins Costa
Observatório da Imprensa 

Fonte:  clipping FNDC

A grande massa dos seres humanos, principalmente aqueles que têm acesso ao sistema da mídia e aceitam seus conteúdos pelo valor de face, está sendo conduzida para o campo da ilusão porque os simulacros dominam a vida social vivida no ecossistema midiático.

A leitura dos jornais e revistas no fim de semana pode levar a uma constatação espantosa: a de que a principal característica da cultura de massas, neste início de século, é o triunfo da representação sobre a realidade. A grande massa dos seres humanos, principalmente aqueles que têm acesso ao sistema da mídia e aceitam seus conteúdos pelo valor de face, está sendo conduzida para o campo da ilusão porque os simulacros dominam a vida social vivida no ecossistema midiático. No interior desse ecossistema, a verdade pode ou não existir: ela não tem a menor importância, porque tudo é negociado no campo ficcional dos signos.
O processo de rompimento entre a vida real e o simulacro que a substitui, no campo da cultura, parece seguir a receita observada pelo filósofo Jean Baudrillard: primeiro, a imagem é o reflexo de uma realidade profunda; depois, passa a mascarar e deformar a realidade; em seguida, substitui a própria realidade; finalmente, descola-se da realidade e passa a existir como universo paralelo.
Esse fenômeno acompanha a expansão da cultura de massa, que segue a mídia de massa em sua onipresença global. As tecnologias digitais de informação e comunicação aceleram esse processo e jogam um papel central na conquista de novos espaços onde a modernidade foi retardada no passado recente. Portanto, trata-se de um movimento que alcança a humanidade como um todo, permitindo projetar um futuro próximo em que a comunicação irá formar a massa homogênea de uma tribo planetária.
Os pessimistas acham que esse processo conduzirá ao fim da cultura pela imposição de requisitos de segurança, que serão demandados pela própria sociedade, num escambo pela liberdade. Os otimistas entendem que uma sociedade homogênea logo sentirá os efeitos da entropia, e a ruptura será uma questão de tempo.
No Brasil, esse processo tem como característica o fato de que a mídia tradicional cumpre o papel de determinar o que é positivo ou negativo nessa agenda. Essa centralidade se agrava com a concentração da propriedade dos meios e dos recursos financeiros que eles produzem: a principal rede de televisão coleta a maior parte da receita publicitária e se habilita a produzir ainda mais influência, com recursos públicos providos por concessões tributárias.
Ibrahimovic e Al-Qaeda
Quando os meios hegemônicos defendem valores que coincidem com os de determinado perfil partidário – exatamente como faz o Tea Party nos Estados Unidos – o noticiário e as opiniões predominantes na agenda pública tendem a construir uma ideologia conservadora, mesmo na parcela da população que supostamente se beneficia de políticas que procuram estimular a consciência de si e o autorrespeito.
Se, no campo político e econômico, a mídia hegemônica considera positivamente apenas as ideias e iniciativas conservadoras, esse viés ideológico vai influenciar também sua visão da política cultural.
A política, em seu sentido etimológico e nos significados que adquiriu ao longo da modernidade, já não representa a ciência da governação ou a arte da negociação para compatibilizar interesses difusos da sociedade. Sequestrada pela máquina midiática, passou a ser um simulacro que já não guarda relação com sua origem: os contratos que regulam a vida comum na pólis.
Portanto, quando observamos a imprensa no contexto que costumamos chamar de cultura, estamos apenas olhando a representação feita por empresas privadas que se associam a determinados protagonistas, num negócio particular que se faz no espaço público e privilegia manifestações que servem a esse propósito específico. A ideia de Estado que esse consórcio projeta reduz a pólis à praça do mercado, e a cultura se transforma em mais um item nas prateleiras.
As tecnologias que aceleram o efeito globalizante da sociedade de massa pasteurizam a percepção de mundo e impõem relações artificiais entre o sujeito e o objeto da cultura. O esporte, o cinema, a música e outros vetores da cultura de massa levam os signos para todo os cantos do planeta: a imagem de uma base militar do exército iemenita tomada pela Al-Qaeda, divulgada neste mês pela agência France Presse (ver aqui), mostra um homem vestindo a camisa número 11 do jogador Zlatan Ibrahimovic e a saia masculina típica de sua cultura.
Toda a sociedade humana parece mergulhar nesse sistema de signos que se distancia progressivamente das realidades específicas de cada povo, mas também deve-se observar, no âmbito nacional, como uma cultura de simulacro cria valores artificiais no contexto local.
A cultura midiatizada não é mais cultura – é produto. Para entendê-la, é preciso construir um artifício, a etnometodologia, mas isso não cabe na modesta observação diária da imprensa.

terça-feira, 3 de março de 2015

Google: de oráculo a vórtice

Quando o Google encontrou o WikiLeaks

Julian Assange

Fev/2015
R$ 39,00


Julian Assange conta seu encontro com Eric Schmidt, presidente do Google, discutindo os problemas políticos enfrentados pela sociedade – da Primavera Árabe ao Bitcoin – e as respostas tecnológicas geradas pela rede global para esses dilemas.

Depois da publicação de Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet e há mais de dois anos asilado na Embaixada do Equador em Londres, Julian Assange, fundador e editor do WikiLeaks, lança no Brasil seu segundo e mais recente livro, Quando o Google encontrou o WikiLeaks. Ao longo de 168 páginas, Assange discute as consequências da acumulação de poder pelo Google no século XXI e relata seu encontro com Eric Schmidt, presidente do grupo, em 2011. O resultado é um livro fascinante e alarmante, que revela os polos opostos em que esses dois personagens icônicos da atual “era tecnológica” se encontram e suas opiniões divergentes sobre o destino do mundo e das novas tecnologias.

Assange foi procurado pelo executivo quando cumpria prisão domiciliar em Norfolk, na Inglaterra. Na época, o Google estava a caminho de se tornar a empresa mais influente do planeta pelas mãos de Schmidt, uma pessoa de natureza analítica e inteligência sistemática. Ambos debateram questões contemporâneas – da Primavera Árabe ao Bitcoin – e as respostas tecnológicas surgidas na rede global para os atuais dilemas sociopolíticos. Para Assange, o potencial libertador da Internet é baseado na ausência de poder estatal. Schmidt, por outro lado, defende que sejam levadas em conta questões de política externa e as relações entre governo e empresas de tecnologia. Tais diferenças estão no cerne de uma disputa ideológica acirrada sobre o futuro da internet, que só se intensificou com os anos.

O livro traz um alerta sobre a natureza ambivalente das tecnologias de informação e comunicação e lembra que redes digitais e seus dispositivos não são neutros. “Assange liga nomes, fatos e instituições, deixando evidente que o Google não é uma mera empresa inovadora que distribui aplicativos e constrói plataformas para nos alegrar e nos permitir fazer mais por nós mesmos. O Google se tornou uma corporação que integra o sistema de controle, vigilância e expansão do poder do Estado norte-americano”, analisa o sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, na apresentação. “Muitas pessoas pensam que o mundo da tecnologia é o mundo da ausência de relações de poder. Este livro mostra que elas estão enganadas. O poder não se faz por meio da tecnologia somente, mas está embutido na própria tecnologia.”

O Google não é a única empresa cujo posicionamento no mercado tem possibilitado um enorme poder político, mas é um exemplo dos perigos da internet corporativa. “Desde muito cedo, seus fundadores perceberam que o processamento de informações em grande escala os colocaria no centro de tudo”, afirma Assange. “À medida que cresce o monopólio do Google na área de busca e serviços de internet, e ele estende a vigilância industrial para a maior parte da população do planeta, dominando rapidamente o mercado de telefonia móvel e apressando?se para ampliar o acesso à internet no hemisfério sul, ele se torna praticamente a própria internet para muitas pessoas. A influência do Google sobre as escolhas e o comportamento de todos os seres humanos se traduz em um poder concreto de influenciar o rumo da história.”

O livro ganhou destaque na imprensa internacional, noticiado em jornais como The Guardian e The Independent, por fazer parte da empreitada de Assange para revolucionar as formas de acesso à informação. Quando o Google encontrou o WikiLeaks apresenta a conversa entre Schmidt e Assange em forma de diálogo transcrito, e inclui ainda um prefácio redigido pelo fundador do WikiLeaks especialmente para a edição brasileira.