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terça-feira, 8 de março de 2016

Dia Internacional das Mulheres - por quê?

Às que vieram antes de nós: histórias do Dia Internacional das Mulheres

As origens socialistas do 8 de Março

A 'Lancashire lassie' being escorted through the palace yard, Westminster Palace, London, 20th March 1907. A young woman is reluctantly escorted by two policeman who are holding her by the arms. The woman is still protesting as she is led away. The last line of the verse at the bottom says 'For Women's Rights anything we will dare; Palace Yard, take me there!' (Photo by Museum of London/Heritage Images/Getty Images)
Manifestante sendo retirada do Palácio de Westminster em Londres, 20 de março de 1907. [Foto: Museum of London/Heritage Images/Getty Images]



“Ao longo da maior parte da História, Anônimo foi uma mulher”.
 
VIRGINIA WOOLF


“Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem,
Quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar”

 
BERTOLT BRECHT


Era perto do fim do expediente da tarde de sábado, 25 de março de 1911, quando uma nuvem de fumaça se espalhou pelos três andares superiores do Asch Building, em Nova York. Ouviu-se o som de estilhaço de vidro seguido de um forte estampido. As trabalhadoras da Triangle Shirtwaist Company, que ocupava o espaço, acreditavam que fossem fardos de tecido ou pedaços da fachada que se desprendiam do prédio consumido pelo fogo. Logo perceberam o horror absoluto: aquele estranho estampido vinha dos corpos de mulheres e meninas que se jogavam das janelas tentando escapar das chamas. Bombeiros tentavam inutilmente amparar a queda com redes de proteção que se rompiam pelo peso dos corpos. A fumaça e os gritos se alastravam por quarteirões, bombeiros desorientados direcionavam as mangueiras para os últimos andares do prédio tomado pelas chamas, mas a água só tinha pressão para atingir o sétimo andar do Asch Building. Em apenas 18 minutos, o incêndio transformou o oitavo, o nono e o décimo andar em escombros. Dentro do prédio, trabalhadoras se espremiam contra duas saídas de emergência – uma delas estava trancada.
Eu, junto com outras moças estava no vestiário do oitavo andar [da fábrica] (…), às 4h40 em ponto, da tarde de sábado, 25 de março, quando ouvi alguém gritar: fogo! Larguei tudo e corri para a porta [de emergência] que estava trancada e, imediatamente, as meninas se amontoavam atrás dela. Os patrões mantinham todas as portas fechadas a chave o tempo todo por medo que as meninas pudessem roubar alguma coisa. Algumas meninas estavam gritando, outras esmurrando a porta com os punhos. (Depoimento de Rosey Safran apud GONZÁLEZ, 2010)
Os três pisos da Triangle Shirtwaist Company eram ocupados por 260 trabalhadores e 240 máquinas de costura amontoadas. As máquinas ordenadas em 16 fileiras, muito próximas, bloquearam os caminhos em direção às portas de emergência. A fábrica não respeitava princípios básicos de segurança e havia sido notificada diversas vezes pelo Departamento de Construção sobre as perigosas condições do prédio.
O Asch Building terminou de ser construído em 1901, tinha 41 metros de altura e a sua estrutura, o assoalho, a moldura das janelas e portas eram de madeira. (…) Dadas as suas dimensões, o imóvel deveria ter sido equipado com três escadas de acesso, mas tinha apenas duas (…) que foram construídas tortuosas e estreitas. (…) O artigo 80 da Legislação Trabalhista Estadual (State Labor Law) estabelecia que as portas das fábricas deveriam abrir para fora (…) e que não podiam estar fechadas com chaves durante as horas de trabalho.  No Asch Building, todas as portas abriam para dentro, devido à estreiteza dos corredores e escadas. (…) O Departamento de Construção enviou uma carta aos proprietários da fábrica (…) na qual denunciava as perigosas condições em que trabalhavam os operários, de quem nunca recebeu resposta. (GONZÁLEZ, 2010, p. 33-35)
No incêndio, morreram 146 trabalhadores, dos quais 17 eram homens e 129 eram mulheres e meninas – 90 delas se jogaram pelas janelas do prédio. A maioria das jovens era imigrante, tinha entre 16 a 24 anos e trabalhava em condições desumanas. Seus salários equivaliam a um terço do recebido pelos homens, enfrentavam jornadas de trabalho extenuantes e não tinham condições mínimas de segurança.

Isaac Harris e Max Blanck, proprietários da empresa e conhecidos por tratar trabalhadores como “dentes de uma engrenagem”, foram acusados de homicídio culposo. O júri composto unicamente por homens – na época mulheres não podiam ser juradas em Nova York – os inocentou de todas as acusações: “a defesa argumentou que não se poderia provar que eles tivessem mandados fechar as portas” (GONZÁLEZ, 2010). A palavra das sobreviventes, que afirmaram que os patrões trancavam as portas, de nada valeu.

Do lado de fora do tribunal, familiares, trabalhadores e ativistas gritavam: – assassinos! O som se espalhou pelas esquinas de Nova York e 300 mil pessoas foram às ruas debaixo de chuva para um funeral simbólico. A pergunta era: de quem é a responsabilidade? Dos inspetores de construção que permitiram escadas de incêndio inadequadas? Dos políticos que não exigiram normas de segurança? Ou dos proprietários que ignoraram as recomendações da fiscalização em nome do lucro? Ou de todos eles que tratavam operárias, sobretudo as imigrantes, como cidadãs de terceira classe?


A RELAÇÃO ENTRE A GREVE GERAL E O INCÊNDIO

 


 
A história do incêndio foi contada e recontada várias vezes e ao longo do tempo alguns fatos acabaram se embaralhando: na versão comumente repetida, as trabalhadoras estariam ocupando a Triangle Shirtwaist Company durante uma greve e os patrões teriam trancado as saídas e ateado fogo na fábrica. No entanto, os relatos das sobreviventes dão conta de que não havia greve naquele momento. Uma das maiores greves da indústria têxtil de Nova York aconteceu de setembro de 1909 até fevereiro de 1910 – cerca de um ano antes do incêndio. As trabalhadoras da Triangle foram as primeiras a parar, produzindo um efeito dominó até a deflagração da greve geral, conhecida como “o levante das 30 mil”. Foi a primeira grande greve de mulheres no país, numa época em que nem mesmo o direito ao voto havia sido conquistado.

No documentário Triangle – Remembering The Fire, Katharine Weber conta que sua avó, Pauline Gottesfeld Kaufman, trabalhadora da Triangle, foi brutalmente atacada pela polícia e por pessoas pagas para ‘desfazer’ a greve: “minha avó me falou de um guarda que tentou prendê-la ou agarrá-la. Ela se envolveu numa luta corporal com ele e conseguiu fugir. Quando parou e olhou para a própria mão, viu que arrancou um tufo de cabelo dele e ainda o segurava. Muitas mulheres foram presas acusadas de perturbar a ordem pública”.

Em novembro de 1909, na assembleia do sindicato das empresas Cooper, Clara Lemlich, trabalhadora presa pela polícia sete vezes por agitação, fez um discurso que marcou a história do movimento sindical nova-iorquino: “sou operária, uma dessas que estão em greve contra condições intoleráveis de trabalho. Estou cansada de ouvir oradores. (…) Estamos aqui é para decidir se entraremos ou não em greve. Apresento uma resolução a favor da greve geral já”.
No setor têxtil, as mulheres constituíam a maior parte da mão de obra. As condições em que trabalhavam eram deploráveis. (…) A paralisação começou no dia 27 de setembro de 1909, precisamente na Triangle Shirtwaist Company. (…) Os trabalhadores demandavam salários mais altos, melhorias nas condições de trabalho, abolição do sistema de subcontratação, jornada de trabalho de 52 horas semanais e, sobretudo, o reconhecimento de seus direitos sindicais. (GONZÁLEZ, 2010, p. 33-45)
As jovens da Triangle eram consideradas um problema pelos poderosos empresários do Lower East Side. Portanto, não é possível afirmar que não existam conexões entre o incêndio e a greve, ainda que a versão oficial diga que o fogo foi provocado por um trabalhador que teria jogado um cigarro aceso próximo de rolos de tecido que se acumulavam no oitavo andar do prédio. Fica evidente que o aparato jurídico, cujas leis beneficiavam os empresários, responsabilizaram os próprios operários por sua morte.

Quando a greve foi encerrada, mais de trezentos patrões tinham feito acordo com os trabalhadores – no entanto, treze empresas, incluindo a Triangle, não chegaram a nenhum acordo: “se tivessem aceitado as reivindicações dos grevistas, o incêndio que ocorreu no ano seguinte provavelmente não teria acontecido” (GONZÁLEZ, 2010).

Em consequência do incêndio, foi criada a Comissão de Investigação das Fábricas, que passou a avaliar o risco em inúmeros estabelecimentos. Frances Perkins, que se tornaria a primeira Secretária do Trabalho, fez parte da comissão – ela estava na Washigton Square no dia do incêndio e viu as jovens pulando das janelas do prédio de mãos dadas e abraçadas. Os dados apurados pela Comissão levaram à promulgação de leis em Nova York que regulavam normas de segurança, salário mínimo, assistência aos operários desempregados e assistência aos velhos demais para trabalhar.


DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES: MITO FUNDADOR E SEQUESTRO DE SIGNIFICADO


MITO

O incêndio da Triangle Shirtwaist Company marcou de forma indelével o mês de março como um momento de se interrogar o passado para retomar o presente de forma crítica. Interrogar não apenas a história das mulheres operárias do início do século XX, mas de todas as mulheres que vieram antes de nós. A história do Dia internacional das Mulheres atravessa o movimento das mulheres operárias norte-americanas, que comemoravam em diversos Estados o Woman’s Day, desde 1908, pelo esforço do movimento de mulheres socialistas para internacionalizar a data, em 1910, e por diversos acontecimentos que marcaram a história da luta das mulheres em diferentes partes do mundo. Nenhuma dessas histórias pode ser apagada.

Quando Clara Zetkin propôs, na Segunda Conferência Internacional da Mulher Socialista, realizada em 1910, um dia internacional dedicado à reivindicação dos direitos das mulheres, ainda não havia uma dia definido, mas a intenção de unificar uma data para celebrar a solidariedade internacional na luta pelos objetivos comuns.
As mulheres socialistas de todas as nacionalidades organizarão em seus respectivos países um dia especial das mulheres (…). Será necessário debater essa proposição com relação à questão da mulher a partir da perspectiva socialista. (ZETKIN apud GONZÁLEZ, 2010, p. 115)
Entre 1911 e 1914, o Dia Internacional das Mulheres foi comemorado em datas diferentes do mês março. Apenas em 8 de março de 1917, com a deflagração da greve das tecelãs de São Petersburgo que impulsionou a Revolução Russa, esta data foi consagrada como o Dia Internacional das Mulheres. No entanto, organizações internacionais – como a ONU e a UNESCO – demoraram mais de 50 anos para reconhecer a data, e só o fizeram por pressão e insistência dos movimentos feministas.

Relembrar os caminhos que levaram a instituição dessa data é um modo resistir. Hoje, é importante impedir que o conteúdo emancipatório desta data seja substituído por um significado edulcorante e conveniente ao sistema capitalista. O capitalismo não age sobre os movimentos emancipatórios unicamente com a intenção de eliminá-los: pretende sempre incorporá-los, esvaziá-los de significado e potência revolucionária para transformá-los em produto.

De uma perspectiva histórica, fica evidente o sequestro de significado e o apagamento ostensivo da história do Dia Internacional das Mulheres. Um dia que, nas palavras de Alexandra Kollontai, deveria ser de “consciência política e de solidariedade internacional” (KOLLONTAI, 1982) vem se tornando uma data comercial em que o mercado ‘celebra’ estereótipos de gênero que determinaram e limitaram a vida das mulheres.

É preciso escavar os escombros que parecem se fechar sobre a história das mulheres que lutaram pelo dia 8 de março, impedir tentativas de apagamento de seus rastros e de seus nomes. Retomar o significado político da história do Dia Internacional das Mulheres é uma importante ferramenta contra as fogueiras materiais e simbólicas que continuam acesas.





Daniela Lima é escritora e ativista. Autora de Anatomia (2012), Sem Importância Coletiva (2014) e Sem Corpo Próprio (2015 – em andamento). Teve contos traduzidos para a revista The Buenos Aires Review (2013) e foi finalista do prêmio literário Exercícios Urbanos (2008) na categoria contos. Colaborou para diversas revistas e sites, entre eles Blog do Instituto Moreira Salles, Carta Capital, Margem Esquerda, Territórios Transversais e Pesquisa Fapesp. É comentarista da Rádio Manchete, biógrafa da escritora Maura Lopes Cançado e fundadora do coletivo feminista Jandira (2014). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Sobre mulheres, sobre sua palavra: duas notícias [bem diferentes!] que indiciam a circulação de um discurso



Mulheres poetas, vibrantes porém ignoradas


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Elizandra Souza, em sarau na zona sul de SP: em legítima defesa

Breve panorama sobre vozes femininas que hoje fazem versos — mas permanecem à sombra por preconceito de editores. Uma realidade em rápida transformação

Por Inês Castilho

No ano 40 do feminismo brasileiro, já não se admitem atitudes que até outro dia, naturalizadas, passavam batido. No mundo das luzes inclusive. Por exemplo, circula por aí manifesto em que intelectuais e artistas se comprometem a não participar de mesas de debates ocupadas apenas por homens – mudando assim o conceito de normalidade. Outro exemplo: questionada na última edição sobre a ausência de homenageadas, a Flip escolheu louvar este ano a escritora Ana Cristina César, segunda em 14 anos de festival – a primeira foi Clarice Lispector, em 2005.

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Ana Cristina César, segunda mulher a ser homenageada na Flip


No mundo editorial, a provocação veio de uma jovem poeta, Ana Rüsche, ao jogar na rede o texto Mulheres escrevem poesia e desaparecem, em que questiona a invisibilidade da “intensa produção de poesia feita por mulheres” no país. Ana cita livros e artigos recentes em que o placar é tremendamente desfavorável às poetas. Volta às publicações da virada do século e constata: a coisa é grave. “O que me espanta é que qualquer análise lúcida e cuidadosa dos dias de hoje iria apontar o evidente protagonismo feminino na poesia!” E então lança o dado avassalador: em todos esses livros e artigos não encontrou uma única poeta negra.



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Conceição Evaristo, prêmio Jabuti 2015


Há nomes consagrados como Cecília Meirelles, Pagu, Hilda Hilst, Olga Savary, Adélia Prado, Alice Ruiz, e mesmo o das malditas Leila Miccolis e Orides Fontela. E ainda de suas antepassadas Auta de Souza, Gilka Machado e Francisca Júlia, entre tantas outras que, à frente do seu tempo, ousaram poetar quando não eram autorizadas sequer a estudar. Falo das excluídas desde as décadas de 70 e 80, quando a produção poética das mulheres se torna mais expressiva, diante da ressurgência da luta feminista e o início da desconstrução social de gênero – tais como Stela do Patrocinio e Conceição Evaristo, esta finalmente vencedora de um Jabuti na categoria contos e crônicas. Ou das inúmeras jovens e nem tão jovens que, de lá para cá, vêm se aventurando na poesia.


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Alice Ruiz: 70 anos de poesia


Mar de poetas
Elas são tantas que nem conseguiria eu conhecê-las, nem seus nomes caberiam neste texto. Basta clicar no blog do poeta paulista Rubens Jardim – integrante da Catequese Poética, movimento que levou a poesia às ruas, logo após o golpe militar de 1964 e que, desde 2011, já publicou 270 poetas e mais de mil poemas de mulheres em seu site. Rubens, para quem “a poesia é uma necessidade concreta de todo ser humano”, conta que iniciou esse trabalho ao perceber como era relegada a segundo plano a poesia das mulheres.


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Gilka Machado (1893-1980)


“Que o José Veríssimo ou o Sílvio Romero – famosos críticos e historiadores da literatura do século 19 – registrassem poucos nomes femininos, tudo bem. Eram poucas as mulheres ‘atrevidas’ a publicar. Mas, quando fiquei sabendo que um cara batuta como o Prof. Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, só menciona quatro nomes: Francisca Júlia, Gilka Machado, Auta de Sousa e Narcisa Amália, fiquei estarrecido. Aí baixou Xangô, santo da justiça, e iniciei o trabalho em favor das mulheres poetas. E as pesquisas foram me mostrando que, nessa garimpagem, eu estava encontrando ouro puro.”


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Alzira Rufino: poeta, feminista, ativista


Diante de tal transbordamento, aviso aos navegantes que os nomes aqui mencionados são fruto quase do acaso, somado a um gosto muito particular. E que entre eles encontram-se os de poetas bem divulgadas, assim como de outras que se publicam principalmente pela internet – essa ferramenta mais que bem-vinda para a difusão de todas as artes.

Pois elas são muitas, e já começam a causar – como no caso recente da censura ao poema da baiana Lívia Natália, “por incitar preconceito e intolerância contra policiais militares”. Vencedora do edital do programa “Poesia nas Ruas” em Ilhéus, na Bahia, a professora do Instituto de Letras da UFBa teve seu poema retirado de um outdoor, em três dias, quando lá deveria estar por dois meses:

Quadrilha
Maria não amava João.
Apenas idolatrava seus pés
escuros.
Quando João morreu,
assassinado pela PM,
Maria guardou todos os seus sapatos.


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Lívia Natalia, poeta baiana censurada


Como Lívia, não faltam mulheres negras, muitas periféricas, produzindo poesia nesta quadra da vida brasileira. Desde Alzira Rufino, feminista e ativista do movimento negro nascida em Santos (SP) em 1949:

Resgate
Sou negra ponto final
Devolvo-me a identidade
Rasgo a minha certidão
Sou negra
Sem reticências
Sem vírgulas
Sem ausências
Sou negra balacobaco
Sou negra noite cansaço
Sou negra
Ponto final.


“Quando leio uma poeta mulher negra, geralmente escuto um grito. Um grito que fala de outros tempos e outras dores que se repetem ainda hoje”, diz Lubi Prates, poeta curitibana que edita a revista literária Parênteses. Também ela versa sobre violência policial, aquela que se abateu contra os professores no Paraná, em
até só restar o depois/ sobre o dia 29 de abril de 2015, em Curitiba
(…)
pudesse,
recordaria o cheiro
antes daquela tarde
quando tudo se confundiu a

gás
pólvora
sangue.
(…)

Os motes exprimem a diversidade das próprias poetas. Amor, tema universal tão a nosso gosto, é tratado com humor sarcástico, bem distante da “delicadeza feminina” com que os críticos gostavam de carimbar essa produção. Como faz a poeta mineira Aden Leonardo:


Coisa de mulher
Tenho meus pés caídos…
– você ainda extorquiu o dedo mínimo
Já não servia de nada, Amor!
Foi só para ferir… ou organizar
sua gaveta de conquistas



Ou força lírica, como a poeta capixaba Fabíola Mazzini Leone:

simplicidade
realejo
quanto mais te amo
mais te vejo.


Igualmente universal, a dor é tematizada com leveza quase zen pela poeta Solange Padilha, paraense radicada no Rio de Janeiro, neste poema sem título:

sinto a dor que morde
bato asas
asas batem ao vento
mordem a dor
sinto o vento bater asas
rumo ao norte
não há mais dor



Ou com humor cirúrgico, como a curitibana radicada em São Paulo Alice Ruiz, em poema musicado por Itamar Assunção:


Milágrimas
Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
(…)



Profunda, humana dor, retratada pela poeta mineira Líria Porto:

nau frágil
esbarrou na dor
e para não naufragar
deixava pelo caminho
parte da carga

outro baque
partiu-se o casco
o capitão foi a pique
salvou-se o mar.



Tem também a morte, nos versos da poeta paulista Rita Moreira:

Eros e Tânatos
Tão doce a Voz que noite alta
às vezes me chama –
a desses mortos,
que um dia eu amei
na cama.



E a liberdade, cantada pela mineira Adriane Garcia:


Escolher
Há você
Um espaço
Para os passos
E uma porta

Não é por que
É uma porta
Que você tem que
Abri-la
Liberdade pode ser
Antes da porta.



Política é por certo assunto de mulher – como faz Bianca Velloso, gaúcha criada na ilha de Santa Catarina:


resistência
novembro de mil novecentos e setenta e nove
primavera no hemisfério sul
e era medo o que florescia
no jardim lá de casa
(…)



Mas é assunto principalmente das poetas negras, ao tratar de gênero e etnia. Como Alzira Rufino:

Resisto
De onde vem este medo? Sou
sem mistérios existo
Busco gestos de parecer
Atando os feitos que me contam
Grito de onde vem esta vergonha sobre mim?
Eu, mulher negra, resisto.



Ou com a crueza de Elizandra Souza, da periferia Sul de São Paulo:

Em Legítima Defesa
Estou avisando, vai mudar o placar…
Já estou vendo nos varais os testículos dos homens que não sabem se comportar
Lembra da cabeleireira que mataram outro dia,
… E as pilhas de denúncias não atendidas?
Que a notícia virou novela e impunidade
É mulher morta nos quatro cantos da cidade…
(…)



Sem palavras proibidas, e com todas as letras, assegura Viviane Mosé, poeta capixaba que adotou o Rio de Janeiro:

Toda palavra
(…)
Toda palavra deve ser anunciada e ouvida.
Nunca mais o desprezo por coisas mal ditas.
Toda palavra é bem dita e bem vinda
(…)



Ou ainda como, irreverente, faz a gaúcha Angélica Freitas:

Às vezes nos reveses
penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
(…)



Coisas de mulher, recorda outra poeta capixaba radicada no Rio, Elisa Lucinda:

Aviso da lua que mestrua
Moço, cuidado com ela
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua…
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
(…)



Ou como, lembrando a imposição cultural de juventude e beleza às mulheres, dizem os versos da gaúcha Nilcéia Kremer:

Kamikaze
Uma mulher traz areia nas mãos
vento nas veias
e uma ampulheta implacável
tatuada na pele
(…)



Mas é sobre lavrar versos, este ofício mesmo da poesia, que elas falam, pra mim, mais bonito. Como Viviane Mosé:

Receita para lavar palavra suja
Mergulhar a palavra suja em água sanitária.
Depois de dois dias de molho, quarar ao sol do meio dia.
Algumas palavras quando alvejadas ao sol
adquirem consistência de certeza.
Por exemplo a palavra vida.

Existem outras, e a palavra amor é uma delas,
que são muito encardidas pelo uso,
o que recomenda esfregar e bater insistentemente na pedra,
depois enxaguar em água corrente.
(…)



Ou, como diz Ana Estaregui, nascida em Sorocaba (SP), nestes versos sem título:
anotou em seu moleskine a palavra laringe.
 

o poema, em geral, cresce em volta de uma palavra estranha.
às vezes nem tão estranha, mas que provoca uma pequena paralisia.
[e eu adoro ser flagrada por essas palavras]
elas interrompem o meu dia, param tudo mesmo.
de vez em quando, quando posso,
pego elas com as mãos
e aí desenho um espaço pra elas, feito de letras



Ou ainda como, tropicalizando com humor, diz a poeta paranaense Marilia Kubota:

Gaste tempo
(…)
bravo
você tem jeito
pra escrever versos
eu só finjo
minha ikebana
tem flor de banana



Poesia feminina?
Se existe ou não uma escritura feminina é tema de debate – e há controvérsias. “Se existe ignoro, o que percebo são características comuns reflexo das vivências do universo feminino que inevitavelmente se evidenciam em algumas escritas femininas. Mas uma tradição mesmo que se compare ao ‘landay’, por exemplo, que são dísticos de lírica amorosa compostas tradicionalmente por mulheres no Afeganistão, eu não vejo no Brasil”, considera Nilcéia Kremer. “As características variam de poeta pra poeta, claro, a vivência em um gênero traz determinado assunto vivido para a poesia de tal poeta, assim como quaisquer diferenças podem atuar no conteúdo que um poeta elabora, mas isso não é o que define a poesia de alguém”, concorda Adriane Garcia. Já Aden Leonardo tem uma visão diferente: “há uma grande tendência em dizer poesia feminina. Acho justo até. Universo feminino é diferente do masculino. Falar de ciclos, crianças, flores, comportamentos, sofrimentos ditos ‘femininos’ só cabe com tal ‘justeza’ às mulheres. E que mal há nisso? É lindo! Acho que é fácil saber um poema feminino… É um instinto passado a verso.”

Mas afinal, escrever por quê?

“Escrevo porque preciso criar uma voz para mim mesma. Escrevo porque a própria língua é um enigma como a vida. Escrevo para me comunicar. E nesse desejo de transformar palavras em argamassa ou tijolos, faço minha tentativa de construir e habitar um universo”, diz Solange Padilha.
É quase uma questão de vida ou morte, versa a paulista Nydia Bonetti:


existe quando canta
por isso canta
pra existir
e morre
quando cala
[cada vez mais difícil

ressuscitar]

De saúde ou doença, considera Viviane Mosé:

Receita para arrancar poemas presos
A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras
calcificadas,
Poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.
(…)



Intime-se, publique-se. Este o conselho de Ana Rüsche às mulheres para que saiam do armário – ou da gaveta. “Sim, aquela gaveta onde se guardam os originais, onde os contos dormem esquecidos e os poemas ficam silenciados, cheios de rabiscos incertos. A gaveta também pode ser aquela pasta perdida no computador, uns documentos de word com capítulos de um romance sempre por terminar. A gaveta, o inverso do livro, outra forma de espera.” Ana oferece ali um passo-a-passo para a autopublicação.
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Ana Rüsche: e nossas irmãs mais velhas?


E há também as poucas editoras que, antenadas com os novos tempos, vêm publicando a produção feminina. Como a Patuá, cujo editor, Eduardo Lacerda, também poeta, procura equilibrar autores e autoras. A invisibilidade das poetas é histórica, cultural, mas as coisas estão mudando, diz ele, ao lembrar que os prêmios Jabuti de melhor romance e livro do ano foram concedidos, em 2015, a Maria Valéria Rezende, uma freira; que Micheliny Verunschk ganhou, pela Patuá, o Prêmio São Paulo de Literatura de melhor autora estreante acima de 40 anos e o de estreante abaixo de 40 anos foi concedido a Débora Ferraz. “São mulheres, e ainda nordestinas; pela lógica do mercado, isso não aconteceria.” Também o Jabuti de contos foi concedido à jovem carioca radicada em São Paulo Caroline Rodrigues.


“As mulheres estão tendo visibilidade cada vez maior. A questão feminista está hoje muita clara para as jovens, e isso faz com que a coisa vá mudando, às vezes na marra. Um sintoma é a diferença que vejo entre as alunas de Letras da USP de agora e de quando saí da faculdade, há 10 anos. Estão muito engajadas na luta feminista, e isso acaba mudando as coisas também na cultura e nas artes.”
É vasta, diversa e de qualidade a produção poética das mulheres brasileiras na atualidade. E embora cantem como cigarras, as poetas, bem formiguinhas, vêm trabalhando para fazer frente a esse panorama de desigualdade. Por exemplo: um grupo formado por onze delas, de sete estados (entre as quais Ana Rüsche, de São Paulo) está organizando um festival para mostrar a invisibilidade das poetas brasileiras, em três eventos: “Poesia dos anos 1990” (março), “Poesia dos anos 00” (maio) e “Poesia de hoje” (junho). Na programação, debates, leituras e oficinas, em locais que logo serão definidos. Outras Palavras dará a notícia.

***

Para a Playboy, nudez não tem preço

Em carta à imprensa, a revista masculina, que retorna às bancas em abril, justifica seu posicionamento de não pagar cachês por ensaios

04 de Fevereiro de 2016 09:37
Meio&Mensagem


Crédito: Reprodução
Atualizado às 15h48

Sob nova editora no Brasil, a PBB Entertainment, a Playboy não pagará cachês a suas modelos.
Em carta à imprensa, a publicação justifica que “a mulher não será objeto de nudez, terá voz na revista e suas histórias de vida serão valorizadas. Os ensaios não serão mais pagos com cachê porque o corpo da mulher não tem preço. Na nova Playboy, não haverá leilão sobre qual estrela foi mais bem paga, porque nenhuma mulher vale mais que outra”.

A Playboy acredita que seu desafio atual é se manter como a maior revista masculina do País e resgatar prestígio tendo a mulher como parceira. “Não haverá mais obrigatoriedade de exibir nudez frontal. Assim, fica estabelecido que a estrela pode ter acesso a eventuais acordos e contrapartidas não editoriais, sempre articulados pela vice-presidência de Vendas, Marketing e Publicidade”.

A PBB Entertainment divulgou, na tarde desta quinta-feira, 4, que a atriz Luana Piovani vai estampar a primeira edição da revista em nova fase. A Playboy será o primeiro produto editorial da PBB, criada pelo fotógrafo de moda André Sanseverino e os empresários Edson Oliveira e Marcos de Abreu.


“Garantimos convergência da publicação com site, aplicativos, e-commerce e organização de eventos”

De acordo com a PPB, os principais valores editorais da Playboy serão preservados e a equipe da revista será liderada por Sanseverino com uma dupla formada por editor-chefe e pela diretora de criação.

Após 41 anos, a última Playboy publicada pela Editora Abril foi às bancas em dezembro do ano passado. O principal argumento da empresa para o fim dos títulos foi “a revisão do portfólio de produtos e a readequação das ofertas à sua audiência, aos anunciantes e agências”.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Porque as "questões das mulheres" são questões de toda a sociedade

Mulheres abrem mão de carreira por causa de maridos, não de filhos, diz estudo




Pesquisa realizada nos EUA concluiu que elas se sentem pressionadas a assumir filhos e obrigações do lar para que maridos possam se dedicar à profissão
Muitas mulheres deixam suas próprias carreiras em segundo plano não para criar os filhos, mas para priorizar a carreira de seu parceiro. Esta é a conclusão de Pamela Stone, professora de Sociologia da Hunter College, em Nova York (EUA), em entrevista ao jornal espanhol El País nesta terça-feira (10/11).

Ela é uma das autoras do estudo “Life and Leadership after HBS” ("Vida e Liderança após Harvard Business School", em tradução livre). Em sua pesquisa, foram entrevistados 25 mil ex-alunos e ex-alunas da instituição, com idades entre 26 e 47 anos, com o objetivo de analisar as aspirações profissionais de homens e mulheres que foram preparados para posições de liderança no mercado de trabalho.

Segundo Stone, as mulheres sentem-se pressionadas por seus parceiros, pelas instituições onde trabalham e pela sociedade como um todo a assumir a criação dos filhos e as obrigações do lar para que seus companheiros possam se dedicar à carreira.

Agência Efe/Arquivo

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Como resultado, as mulheres se mostraram mais insatisfeitas com suas trajetórias profissionais do que os homens. Dados coletados mostraram que 60% dos homens estavam “extremamente satisfeitos” com suas experiências profissionais e oportunidades de promoção contra 40% de mulheres que descreveram sentir o mesmo. Dos homens que participaram da pesquisa, 83% eram casados.
 
Atualmente as mulheres ocupam menos de 20% dos cargos de responsabilidade nas 500 empresas mais importantes do mundo, de acordo com a revista Fortune. Além disso, a Organização Internacional do Trabalho divulgou, em março, um relatório indicando que não haverá igualdade salarial entre os sexos até 2085.   

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O estudo ainda revelou que 75% dos homens esperava que, no futuro, suas companheiras assumissem a maior parte da responsabilidade de criar os filhos, e 50% das mulheres respondeu que esta seria de fato sua função. Entre os homens entrevistados, 70% considerava que suas carreiras teriam prioridade sobre a de suas esposas e cerca de 40% das mulheres concordaram com esta afirmação.

Para Pamela, a “culpa” é da própria sociedade. Ela acredita que as mulheres devem conversar com seus parceiros para poderem desenvolver suas carreiras e se sentirem mais satisfeitas profissionalmente.

“Os casais jovens que estão pensando em criar um projeto de vida juntos deveriam ter uma conversa sobre quais são as pretenções profissionais e pessoais de cada um. É muito importante escolher uma pessoa que respeite os nossos desejos”, disse.