sexta-feira, 18 de março de 2016

Pelo Estado democrático de direito, pela tolerância às diferenças

'Não vamos aceitar fascismo e intolerância política', diz garota agredida em manifestação na Paulista




Em sua página no Facebook, Isadora Shutte descreve violências sofridas, como xingamentos e cusparadas, e lamenta a ignorância política dos manifestantes contrários ao governo 
 
 
 
 vídeo aqui
 
A jovem Isadora Shutte, agredida durante a manifestação desta quarta-feira (16/03) na Avenida Paulista, postou, nesta quinta-feira (17/03), uma carta aberta em seu Facebook denunciando a intolerância vivenciada por ela e o companheiro ao tentar atravessar a principal avenida de São Paulo de bicicleta. Leia o relato:

“Bom dia,
Gostaria de expressar o asco e decepção que eu senti na noite de ontem e contar como as coisas realmente aconteceram.
Às 18h30, eu saí do meu trabalho próximo à Rua Da Consolação como todos os dias. E o Lucas, meu companheiro, foi me buscar de surpresa. Eu estava de bike, e ele estava de skate. Quando nos aproximamos do Masp vimos a via da ciclo-faixa congestionada de pessoas carregando bandeiras do Brasil e com cartazes contra a posse do Lula no ministério da Casa Civil etc.
Eu sou contra essas manifestações, acho realmente uma palhaçada, mas respeito o direito de opinião política de qualquer pessoa, esquerda, direita, ou o que seja. Quando nos aproximamos, eu gritei “Sai da frente, vocês estão congestionando a via”. Ninguém se moveu, apenas olharam pra gente e começaram a gritar seus discursos de ódio ao PT. Um homem muito mal educado veio com um alto-falante e gritou no meu ouvido “Lula ladrão”, enquanto eu insisti em pedir para descongestionar a via.
Nesse momento eu e o Lucas já éramos o centro da atenção dos “manifestantes”, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, expressar qualquer opinião política ou simplesmente dar um jeito de passar por ali para voltar pra minha casa. Já ouvíamos coisas do tipo “eles têm cara de comunista ladrão”, “a bicicleta é vermelha, vai pra Cuba”, E um bando de gente ignorante, sem educação, sem noção de civilidade soltando merda pela boca, afinal eu não comprei uma bicicleta vermelha pra homenagear o PT.
Quando eu me dei conta do que estava ouvindo, fiquei nervosa, e as pessoas já estavam nos rodeando e xingando sem motivos. Eu mostrei o dedo do meio pra um babaca que estava gritando do meu lado e tentamos nos retirar dali quando um animal sem noção me empurrou da bicicleta e eu caí no chão. Nesse momento, as coisas já estavam fora de controle, muitas pessoas acertavam o cano das bandeiras na nossa cabeça, nos empurravam, puxavam minha bicicleta e gritavam com força discursos de ódio absurdos… Ouvi tantas coisas que nem consigo citar tudo, mas lembro bem de vários rostos e das vozes “putinha comunista”, “vadia”, “vai pra Cuba filha da puta”, “petista ladrão”,” não vou deixar você destruir o meu Brasil”.
Eu não tenho medo de playboy ignorante, e de início não me dei conta de que eles eram muitos. As pessoas viam a confusão de longe e já colavam gritando e nos xingando, sem nem saber o que estava acontecendo. Eu tentava me defender, segurava as bandeiras que eles estavam nos acertando e procurava um jeito de sair dali. O Lucas tentava me proteger dos vândalos, enquanto puxava minha bike porque os animais estavam tentando roubar do outro lado. Nessa hora vi várias pessoas começando a gravar, e fomos sendo empurrados para dentro do vão do Masp.
O Lucas estava preocupado, querendo sair logo dali, e eu estava muito exaltada e desacreditada daquela situação toda, tentando exigir o meu direito de passar na rua, de ter uma bicicleta vermelha, de ter minha opinião política e não ser linchada por isso.
De repente vi o Lucas olhando no olho de um idiota que agredia a gente com tapas na cabeça e falando “Meu, para com isso, você tá batendo em uma mina, a gente só está tentando voltar pra casa”.  Segundos depois o imbecil, olhando no fundo dos olhos dele, deu uma cabeçada nele. Não foi nenhum ferimento grave, mas na hora ele estava com o rosto sangrando muito, e nesse momento eu fiquei apavorada, gritava pra alguém chamar a polícia, afinal estávamos na frente de uma base policial.
Nessa hora já tinham muitas e muitas pessoas nos ofendendo e tentando nos agredir e uns três homens, que eu acredito que também eram manifestantes, porém civilizados, tentavam barrar as agressões e falavam repetitivamente que a gente tinha que sair dali rápido, para pularmos do vão onde estávamos para a rua de baixo.
Foi assustador, um homem cuspiu no meu rosto, ouvíamos muitos xingamentos e eu não queria fugir dali e deixar esse bando de retardados impunes. Quando eu me dei conta que não tínhamos escolha, pulamos e atravessamos a rua.
Alguns repórteres foram falar com a gente, disseram que a gente tinha que fazer um boletim de ocorrência, falaram que havia tudo filmado e que nos mandariam o vídeo. Atravessamos a avenida até a base policial, eu ainda estava nervosa, tremendo, assustada com a situação inteira, e tentei explicar para o policial o que havia acontecido.
Ele nos disse “Acho melhor vocês fazerem um B.O. online”. O Lucas estava sangrando, o agressor estava do outro lado da rua, e o policial militar me diz isso? Começamos a fazer um escândalo. Falei que isso era um absurdo e que ele tinha que ir lá com a gente pegar o cara porque a gente queria ir pra delegacia. Tinha um repórter com tudo gravado com a gente, e ele mostrou o vídeo para o PM, que pediu que aguardássemos o superior dele chegar.
Quando ele chegou fomos atrás do indivíduo da cabeçada acompanhados da Polícia Militar, que pediu que não respondêssemos às provocações e apenas mostrássemos quem a gente conseguia identificar como agressor. Encontramos ele, e a polícia pediu que ele nos acompanhasse porque ele foi acusado de agressão. O filho da **** teve a cara de pau de dizer que ele queria me denunciar por roubar a bandeira dele, que por acaso era a bandeira que ele acertava na minha cabeça. Seguimos para a delegacia, enquanto ele ria da nossa cara, mandava beijinhos e espalhava seu veneno de coxa escroto.
Na delegacia, depois de duas horas, conseguimos ser ouvidos e dar nosso depoimento. O animal de nome Marcelo alegou que nós o agredimos, mostrou arranhões nos braços e nos acusou de agressores, o que fica claro no vídeo que é mentira. Primeiro porque é muito óbvio quem está sendo agredido, e segundo porque o imbecil usava um casaco na hora da confusão que torna impossível que eu tenha o arranhado nos braços. Depois de três horas, saímos os três, Lucas, eu e o delinquente como “autores-vítimas” do caso, que vai ser julgado em tempo indeterminado.
Gostaria de expressar que, sim, eu sou de esquerda. Sim, eu respeito a democracia e acredito que a Dilma tem que terminar o mandato dela a menos que tenham provas criminais contra ela, que no caso NÃO TEM. Sim, eu acho um absurdo o que a mídia golpista está fazendo, acho um absurdo a forma como tratam o Lula e não fazem o mesmo com outros políticos que têm acusações bem mais sérias. Sim, eu acho um absurdo pessoas pedindo o impeachment, sendo que o vice é um imbecil que pertence ao partido mais corrupto do país. Sim, eu acho um absurdo a classe privilegiada querer destruir um partido que fez grandes avanços sociais apenas porque não querem dividir seus ambientes. Sim, eu acho ridículo playboy que sempre teve tudo na vida com cartazes contra o Bolsa Família, cotas, Fies etc. Sim, eu acho o cúmulo do absurdo a classe média branca e reaça pedindo intervenção militar depois do período assustador de 64. Também gostaria de dizer que eu não sou petista, e que eu jamais agrediria uma pessoa só por ter opinião política diferente da minha - ainda que eu sinta vontade, eu nunca faria isso.
Eu fico triste pela situação que temos hoje no Brasil em que eu não sei quem é mais doente, o governo, a oposição ou a população. Fico triste pela ignorância das pessoas, pelo desconhecimento político das pessoas, pelos discursos falidos de quem nem sabe o que está fazendo ali. Sinto muito pela ingenuidade deles em acreditar que uma pessoa é responsável por todo um sistema de corrupção que existe há anos, sinto muito pela intolerância, pelo ódio que nos divide, sinto muito em ver que essas manifestações da direita são mais uma festinha pra postar foto no Instagram do que realmente a defesa de uma ideologia ou causa. Me sinto responsável e protagonista, assim como todos que acharam um absurdo tal nível de violência, de combater isso. Devemos agradecer a democracia e preservá-la, independente do lado em que estamos.
Agradeço de coração mesmo a todos que se solidarizaram, professores, amigos, familiares, e desconhecidos, alguns pró, outros contra governo, que acharam um absurdo tal nível de violência. Não vamos aceitar fascismo, agressão e intolerância política, afinal vivemos em um país livre e democrático.
E, por último, eu sinceramente adoraria ir pra Cuba."

terça-feira, 8 de março de 2016

Dia Internacional das Mulheres - por quê?

Às que vieram antes de nós: histórias do Dia Internacional das Mulheres

As origens socialistas do 8 de Março

A 'Lancashire lassie' being escorted through the palace yard, Westminster Palace, London, 20th March 1907. A young woman is reluctantly escorted by two policeman who are holding her by the arms. The woman is still protesting as she is led away. The last line of the verse at the bottom says 'For Women's Rights anything we will dare; Palace Yard, take me there!' (Photo by Museum of London/Heritage Images/Getty Images)
Manifestante sendo retirada do Palácio de Westminster em Londres, 20 de março de 1907. [Foto: Museum of London/Heritage Images/Getty Images]



“Ao longo da maior parte da História, Anônimo foi uma mulher”.
 
VIRGINIA WOOLF


“Vocês, que vão emergir das ondas
Em que nós perecemos, pensem,
Quando falarem das nossas fraquezas,
Nos tempos sombrios
De que vocês tiveram a sorte de escapar”

 
BERTOLT BRECHT


Era perto do fim do expediente da tarde de sábado, 25 de março de 1911, quando uma nuvem de fumaça se espalhou pelos três andares superiores do Asch Building, em Nova York. Ouviu-se o som de estilhaço de vidro seguido de um forte estampido. As trabalhadoras da Triangle Shirtwaist Company, que ocupava o espaço, acreditavam que fossem fardos de tecido ou pedaços da fachada que se desprendiam do prédio consumido pelo fogo. Logo perceberam o horror absoluto: aquele estranho estampido vinha dos corpos de mulheres e meninas que se jogavam das janelas tentando escapar das chamas. Bombeiros tentavam inutilmente amparar a queda com redes de proteção que se rompiam pelo peso dos corpos. A fumaça e os gritos se alastravam por quarteirões, bombeiros desorientados direcionavam as mangueiras para os últimos andares do prédio tomado pelas chamas, mas a água só tinha pressão para atingir o sétimo andar do Asch Building. Em apenas 18 minutos, o incêndio transformou o oitavo, o nono e o décimo andar em escombros. Dentro do prédio, trabalhadoras se espremiam contra duas saídas de emergência – uma delas estava trancada.
Eu, junto com outras moças estava no vestiário do oitavo andar [da fábrica] (…), às 4h40 em ponto, da tarde de sábado, 25 de março, quando ouvi alguém gritar: fogo! Larguei tudo e corri para a porta [de emergência] que estava trancada e, imediatamente, as meninas se amontoavam atrás dela. Os patrões mantinham todas as portas fechadas a chave o tempo todo por medo que as meninas pudessem roubar alguma coisa. Algumas meninas estavam gritando, outras esmurrando a porta com os punhos. (Depoimento de Rosey Safran apud GONZÁLEZ, 2010)
Os três pisos da Triangle Shirtwaist Company eram ocupados por 260 trabalhadores e 240 máquinas de costura amontoadas. As máquinas ordenadas em 16 fileiras, muito próximas, bloquearam os caminhos em direção às portas de emergência. A fábrica não respeitava princípios básicos de segurança e havia sido notificada diversas vezes pelo Departamento de Construção sobre as perigosas condições do prédio.
O Asch Building terminou de ser construído em 1901, tinha 41 metros de altura e a sua estrutura, o assoalho, a moldura das janelas e portas eram de madeira. (…) Dadas as suas dimensões, o imóvel deveria ter sido equipado com três escadas de acesso, mas tinha apenas duas (…) que foram construídas tortuosas e estreitas. (…) O artigo 80 da Legislação Trabalhista Estadual (State Labor Law) estabelecia que as portas das fábricas deveriam abrir para fora (…) e que não podiam estar fechadas com chaves durante as horas de trabalho.  No Asch Building, todas as portas abriam para dentro, devido à estreiteza dos corredores e escadas. (…) O Departamento de Construção enviou uma carta aos proprietários da fábrica (…) na qual denunciava as perigosas condições em que trabalhavam os operários, de quem nunca recebeu resposta. (GONZÁLEZ, 2010, p. 33-35)
No incêndio, morreram 146 trabalhadores, dos quais 17 eram homens e 129 eram mulheres e meninas – 90 delas se jogaram pelas janelas do prédio. A maioria das jovens era imigrante, tinha entre 16 a 24 anos e trabalhava em condições desumanas. Seus salários equivaliam a um terço do recebido pelos homens, enfrentavam jornadas de trabalho extenuantes e não tinham condições mínimas de segurança.

Isaac Harris e Max Blanck, proprietários da empresa e conhecidos por tratar trabalhadores como “dentes de uma engrenagem”, foram acusados de homicídio culposo. O júri composto unicamente por homens – na época mulheres não podiam ser juradas em Nova York – os inocentou de todas as acusações: “a defesa argumentou que não se poderia provar que eles tivessem mandados fechar as portas” (GONZÁLEZ, 2010). A palavra das sobreviventes, que afirmaram que os patrões trancavam as portas, de nada valeu.

Do lado de fora do tribunal, familiares, trabalhadores e ativistas gritavam: – assassinos! O som se espalhou pelas esquinas de Nova York e 300 mil pessoas foram às ruas debaixo de chuva para um funeral simbólico. A pergunta era: de quem é a responsabilidade? Dos inspetores de construção que permitiram escadas de incêndio inadequadas? Dos políticos que não exigiram normas de segurança? Ou dos proprietários que ignoraram as recomendações da fiscalização em nome do lucro? Ou de todos eles que tratavam operárias, sobretudo as imigrantes, como cidadãs de terceira classe?


A RELAÇÃO ENTRE A GREVE GERAL E O INCÊNDIO

 


 
A história do incêndio foi contada e recontada várias vezes e ao longo do tempo alguns fatos acabaram se embaralhando: na versão comumente repetida, as trabalhadoras estariam ocupando a Triangle Shirtwaist Company durante uma greve e os patrões teriam trancado as saídas e ateado fogo na fábrica. No entanto, os relatos das sobreviventes dão conta de que não havia greve naquele momento. Uma das maiores greves da indústria têxtil de Nova York aconteceu de setembro de 1909 até fevereiro de 1910 – cerca de um ano antes do incêndio. As trabalhadoras da Triangle foram as primeiras a parar, produzindo um efeito dominó até a deflagração da greve geral, conhecida como “o levante das 30 mil”. Foi a primeira grande greve de mulheres no país, numa época em que nem mesmo o direito ao voto havia sido conquistado.

No documentário Triangle – Remembering The Fire, Katharine Weber conta que sua avó, Pauline Gottesfeld Kaufman, trabalhadora da Triangle, foi brutalmente atacada pela polícia e por pessoas pagas para ‘desfazer’ a greve: “minha avó me falou de um guarda que tentou prendê-la ou agarrá-la. Ela se envolveu numa luta corporal com ele e conseguiu fugir. Quando parou e olhou para a própria mão, viu que arrancou um tufo de cabelo dele e ainda o segurava. Muitas mulheres foram presas acusadas de perturbar a ordem pública”.

Em novembro de 1909, na assembleia do sindicato das empresas Cooper, Clara Lemlich, trabalhadora presa pela polícia sete vezes por agitação, fez um discurso que marcou a história do movimento sindical nova-iorquino: “sou operária, uma dessas que estão em greve contra condições intoleráveis de trabalho. Estou cansada de ouvir oradores. (…) Estamos aqui é para decidir se entraremos ou não em greve. Apresento uma resolução a favor da greve geral já”.
No setor têxtil, as mulheres constituíam a maior parte da mão de obra. As condições em que trabalhavam eram deploráveis. (…) A paralisação começou no dia 27 de setembro de 1909, precisamente na Triangle Shirtwaist Company. (…) Os trabalhadores demandavam salários mais altos, melhorias nas condições de trabalho, abolição do sistema de subcontratação, jornada de trabalho de 52 horas semanais e, sobretudo, o reconhecimento de seus direitos sindicais. (GONZÁLEZ, 2010, p. 33-45)
As jovens da Triangle eram consideradas um problema pelos poderosos empresários do Lower East Side. Portanto, não é possível afirmar que não existam conexões entre o incêndio e a greve, ainda que a versão oficial diga que o fogo foi provocado por um trabalhador que teria jogado um cigarro aceso próximo de rolos de tecido que se acumulavam no oitavo andar do prédio. Fica evidente que o aparato jurídico, cujas leis beneficiavam os empresários, responsabilizaram os próprios operários por sua morte.

Quando a greve foi encerrada, mais de trezentos patrões tinham feito acordo com os trabalhadores – no entanto, treze empresas, incluindo a Triangle, não chegaram a nenhum acordo: “se tivessem aceitado as reivindicações dos grevistas, o incêndio que ocorreu no ano seguinte provavelmente não teria acontecido” (GONZÁLEZ, 2010).

Em consequência do incêndio, foi criada a Comissão de Investigação das Fábricas, que passou a avaliar o risco em inúmeros estabelecimentos. Frances Perkins, que se tornaria a primeira Secretária do Trabalho, fez parte da comissão – ela estava na Washigton Square no dia do incêndio e viu as jovens pulando das janelas do prédio de mãos dadas e abraçadas. Os dados apurados pela Comissão levaram à promulgação de leis em Nova York que regulavam normas de segurança, salário mínimo, assistência aos operários desempregados e assistência aos velhos demais para trabalhar.


DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES: MITO FUNDADOR E SEQUESTRO DE SIGNIFICADO


MITO

O incêndio da Triangle Shirtwaist Company marcou de forma indelével o mês de março como um momento de se interrogar o passado para retomar o presente de forma crítica. Interrogar não apenas a história das mulheres operárias do início do século XX, mas de todas as mulheres que vieram antes de nós. A história do Dia internacional das Mulheres atravessa o movimento das mulheres operárias norte-americanas, que comemoravam em diversos Estados o Woman’s Day, desde 1908, pelo esforço do movimento de mulheres socialistas para internacionalizar a data, em 1910, e por diversos acontecimentos que marcaram a história da luta das mulheres em diferentes partes do mundo. Nenhuma dessas histórias pode ser apagada.

Quando Clara Zetkin propôs, na Segunda Conferência Internacional da Mulher Socialista, realizada em 1910, um dia internacional dedicado à reivindicação dos direitos das mulheres, ainda não havia uma dia definido, mas a intenção de unificar uma data para celebrar a solidariedade internacional na luta pelos objetivos comuns.
As mulheres socialistas de todas as nacionalidades organizarão em seus respectivos países um dia especial das mulheres (…). Será necessário debater essa proposição com relação à questão da mulher a partir da perspectiva socialista. (ZETKIN apud GONZÁLEZ, 2010, p. 115)
Entre 1911 e 1914, o Dia Internacional das Mulheres foi comemorado em datas diferentes do mês março. Apenas em 8 de março de 1917, com a deflagração da greve das tecelãs de São Petersburgo que impulsionou a Revolução Russa, esta data foi consagrada como o Dia Internacional das Mulheres. No entanto, organizações internacionais – como a ONU e a UNESCO – demoraram mais de 50 anos para reconhecer a data, e só o fizeram por pressão e insistência dos movimentos feministas.

Relembrar os caminhos que levaram a instituição dessa data é um modo resistir. Hoje, é importante impedir que o conteúdo emancipatório desta data seja substituído por um significado edulcorante e conveniente ao sistema capitalista. O capitalismo não age sobre os movimentos emancipatórios unicamente com a intenção de eliminá-los: pretende sempre incorporá-los, esvaziá-los de significado e potência revolucionária para transformá-los em produto.

De uma perspectiva histórica, fica evidente o sequestro de significado e o apagamento ostensivo da história do Dia Internacional das Mulheres. Um dia que, nas palavras de Alexandra Kollontai, deveria ser de “consciência política e de solidariedade internacional” (KOLLONTAI, 1982) vem se tornando uma data comercial em que o mercado ‘celebra’ estereótipos de gênero que determinaram e limitaram a vida das mulheres.

É preciso escavar os escombros que parecem se fechar sobre a história das mulheres que lutaram pelo dia 8 de março, impedir tentativas de apagamento de seus rastros e de seus nomes. Retomar o significado político da história do Dia Internacional das Mulheres é uma importante ferramenta contra as fogueiras materiais e simbólicas que continuam acesas.





Daniela Lima é escritora e ativista. Autora de Anatomia (2012), Sem Importância Coletiva (2014) e Sem Corpo Próprio (2015 – em andamento). Teve contos traduzidos para a revista The Buenos Aires Review (2013) e foi finalista do prêmio literário Exercícios Urbanos (2008) na categoria contos. Colaborou para diversas revistas e sites, entre eles Blog do Instituto Moreira Salles, Carta Capital, Margem Esquerda, Territórios Transversais e Pesquisa Fapesp. É comentarista da Rádio Manchete, biógrafa da escritora Maura Lopes Cançado e fundadora do coletivo feminista Jandira (2014). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.